“E, depois de ter consumido tudo, houve naquela terra uma grande fome; e ele começou a passar necessidade.”
Há algo na parábola do filho pródigo que talvez passe despercebido. Quando o filho pede ao pai sua parte da herança, ele não está simplesmente pedindo dinheiro. Naquele contexto, era como dizer: “Pai, eu quero aquilo que é teu, mas não quero a ti.” Ele desejava os bens do pai, mas não a presença do pai.
E talvez essa seja uma das imagens mais perfeitas do pecado. Queremos aquilo que Deus pode nos dar, mas não queremos Deus. Queremos seus dons, seus favores, suas bênçãos e sua proteção, mas queremos tudo isso longe da casa do Pai.
Então o pai permite que o filho parta.
O jovem vai para uma terra distante, gasta tudo, entrega-se aos prazeres e vive como deseja. Por algum tempo, provavelmente acreditou que finalmente era livre.
Até que o dinheiro acabou.
Mas há um detalhe impressionante na parábola: não foi quando o dinheiro acabou que ele voltou para casa. Mesmo depois de perder tudo, ele permaneceu naquela terra.
Foi preciso vir a fome.
Foi preciso conhecer a necessidade. Foi preciso chegar ao ponto de desejar a comida dos porcos. Foi preciso sentir no próprio corpo aquilo que sua alma já experimentava havia muito tempo: fome.
Então o Evangelho diz: “Caindo em si…”
Talvez essas sejam algumas das palavras mais importantes de toda a parábola.
Porque o pecado não apenas nos afasta de Deus. Ele nos afasta de nós mesmos.
O filho precisou perder sua herança, sua dignidade, sua falsa liberdade e suas ilusões para finalmente enxergar novamente. E, no fundo daquele abismo, lembrou-se da casa do Pai:
“Quantos empregados de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome!”
A fome revelou aquilo que a abundância havia escondido.
Enquanto havia dinheiro, prazeres e distrações, ele conseguia ignorar o vazio. Quando tudo lhe foi tirado, restou apenas a verdade.
E talvez você esteja vivendo algo parecido.
Talvez algumas coisas tenham desmoronado. Talvez portas tenham se fechado. Talvez pessoas tenham ido embora. Talvez aquilo em que você depositava sua segurança tenha desaparecido. E você olha para tudo isso e pergunta: “Por que Deus permitiu que eu chegasse até aqui?”
Talvez porque algumas verdades só conseguimos escutar quando a música da terra estrangeira finalmente para de tocar.
Deus não tem prazer em nosso sofrimento. Mas, em sua providência, pode permitir que experimentemos as consequências das escolhas que fizemos, porque há momentos em que aquilo que chamamos de ruína pode se tornar o princípio do nosso retorno.
Às vezes, a fome é aquilo que nos faz lembrar onde existe pão.
Alguns de nós precisam caminhar muito longe para descobrir que nunca houve nada naquela terra capaz de realmente nos satisfazer.
Buscamos prazer. Dinheiro. Reconhecimento. Pessoas. Bebida. Trabalho. Distrações. Buscamos qualquer coisa capaz de preencher aquilo que deixamos vazio quando abandonamos a casa do Pai.
Até que, em algum momento, percebemos:
Nunca foram somente os bens do Pai que nossa alma desejava.
Era o próprio Pai.
E aqui está a beleza dessa história.
Quando o filho finalmente decide voltar, ele prepara um discurso. Sabe que pecou. Sabe que desperdiçou tudo. Sabe que não merece reivindicar novamente seu lugar de filho.
Então toma uma decisão:
“Levantar-me-ei e irei ter com meu pai.”
Talvez essa seja a única decisão que você precise tomar hoje.
Levante-se.
Não importa o quanto você caminhou na direção errada. Não importa quanto tempo passou naquela terra. Não importa o que você desperdiçou. Não importa o quanto tenha se afastado.
Levante-se e volte para casa.
Porque, enquanto o filho ainda estava longe, aconteceu algo extraordinário:
O pai o viu.
Isso significa que o pai estava olhando para a estrada.
Esperando.
E quando reconheceu seu filho ao longe, não permaneceu parado exigindo explicações.
Ele correu.
Correu até aquele filho destruído, abraçou-o e beijou-o. E antes mesmo que o filho pudesse terminar o discurso que havia preparado, o pai já ordenava que trouxessem a melhor túnica, colocassem um anel em sua mão e preparassem uma festa.
Porque aquele pai não estava esperando um servo.
Estava esperando seu filho.
Talvez você esteja na terra estrangeira agora. Talvez esteja no meio da fome. Talvez tenha chegado ao ponto de olhar para sua própria vida e perguntar: “Como eu vim parar aqui?”
Então faça aquilo que o filho pródigo fez.
Caia em si.
E depois, levante-se.
Existe um caminho de volta.
Eis a boa notícia, meus irmãos:
O Pai ainda está olhando para a estrada.
Você pode ter abandonado a casa. Pode ter desperdiçado a herança. Pode ter escolhido a terra estrangeira. Pode até ter se esquecido do Pai.
Mas o Pai não se esqueceu de você.
Volte para casa.
“E, levantando-se, foi para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o viu e, movido de compaixão, correu, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.”
Lucas 15,20
